'Não sou eu, é minha tireoide'; o sofrimentomulheres com alteração hormonal:
Laura ouviu um médico dizer que ela estava gorda porque "os venezuelanos são gordos pois comem muitas arepas". Ela chegou a consultar oito médicos para encontrar um tratamento que não causasse um "choque hormonal."
As três foram diagnosticadas com hipotireoidismo autoimune.
Uma borboleta que controlaenergia
A tireoide é uma glândulaformaborboleta localizada no pescoço. Seu trabalho é produzir hormônios essenciais para ajudar o corpo a usar energia, manter-se aquecido e manter o cérebro, o coração, os músculos e outros órgãos funcionandomaneira adequada.
"É como a bateria do corpo. Se funciona muito ou pouco, há sintomas", disse a endocrinologista Paloma Gil.
Se ela funcionar mal, há o chamado hipotireoidismo. Segundo Gil, quem tem esse problema costuma se sentir "como um brinquedo que fica sem bateria, que cansa mais facilmente".
Se a tireoide "funciona demais", ocorre o hipertireoidismo. A pessoa pode se sentir "como se alguém tivesse lhe dado uma dose extracafeína, acelerada", explica Gil.
Tanto o hipotireoidismo quanto o hipertireoidismo têm muitos sintomas: quedacabelo, perdaenergia, mudanças repentinashumor, perda ou ganhopeso, alterações na menstruação, na pele, esquecimento e confusão mental.
"O problema é que os sintomas não são específicos", diz o médico Francisco Javier Santamaría, membro da Sociedade EspanholaEndocrinologia. Por exemplo, no caso do hipotireoidismo "pode ser confundido com ter uma fase ruim ou depressão".
O hipotireoidismo é mais frequente e, segundo Santamaría, é subdiagnosticado. "A estimativa éque ele afete mais ou menos 10% da população. Metade dessas pessoas não é diagnosticada", diz. É uma doença principalmente feminina: "80% das pessoas com o problema na tireoide são mulheres", afirma o médico.
'Não somos um órgão separadoum corpo'
Um tratamento muito comum é a levotiroxina, uma pílula que regula o desequilíbrio da tireoide. "Uma vez que os hormônios estão bem, você pode ter uma vida normal", explica Gil.
Mas não é o casoLoreta, Eirene e Laura, que, apesarestarem sob tratamento, continuam apresentando sintomas.
"Às vezes fico deprimida, tudo me cansa muito. É difícil conciliar essa doença com o ritmovida atual", reclama Loreta.
Já Laura, uma pessoa muito ativa, às vezes trabalha deitada na cama.
"Tento fazer tudo o que posso, sem pressão. Mas é muito difícil estar 100%", acrescenta Eirene.
A condiçãoLoreta piorou recentemente: ela tem nódulos e pode ter partesua tireoide removida. "Meu médico disse que o problema causava sintomas, como não conseguir me concentrar, não conseguir manter uma conversa. Eu sempre digo 'eu não sou assim: é minha tireoide."
"Normalmente a maioria dos pacientes, 80 ou 90%, normaliza esses sintomas. Mas há casosque as pessoas não ficam 100% normais", diz Santamaría.
"Há casos mais complexos. A maioria dos hipotireoidismos é do tipo autoimune e, mesmo tomando remédios, essa autoimunidade continua afetando outros órgãos", explica Santamaría.
Isso significa que nosso sistema acaba atacando a si mesmo. "Você produz anticorpos e ataca outras coisas, você vai contra o folículo piloso, dá vitiligo, problemas no intestino..."
Além disso, destaca Santamaría, o hormônio da tireoide afeta tudo, inclusive o sistema nervoso: "Há muita labilidade emocional, irritação. Mesmo que você tenha corrigido a tireoide, esses sintomas podem persistir", diz.
Em suma, muitos pacientes não encontram respostas.
Um caminho autodidata
As três pacientes entrevistadas pela BBC News Mundo dizem que o problema é que não há tantos médicos atualizados nem há um tratamento integrativo da tireoideseus países. "Tudo está relacionado, não somos um órgão separado do corpo", diz Eirene.
Loreta, Eirene e Laura sentiram que não estavam recebendo todas as respostasque precisavam. As três embarcaramum caminho autodidata: procuraram livros, vídeos e cursos, todos cheiosinformações contraditórias e soluções baseadastentativa e erro.
As três contam com a presençaum médico particular que passa mais tempo com elas e faz seus examesrotina, algo que pode ser encarado como um privilégio. E tanto Laura quanto Eirene foram a especialistasmedicina integrativa para revisar todos os seus sintomas e tratá-losconjunto.
Isabel García é médica especialistaendocrinologia e nutrição com visão integrativa. Ela garante que muitas pessoas chegam ao seu consultório cansadasprocurar tratamentos, alémse sentirem "prejudicadas por médicos que dizem que os sintomas não passammal estar."
"As doenças têm uma causa, uma raiz. Muitas vezes não se resolvem com apenas um comprimido. É preciso examinar a pessoa", diz García, lembrando que um dos problemas é que nas faculdadesMedicina e nas consultas médicas "não se falacomponente emocional ou a importância da alimentação e hábitos".
Um pequeno guia
Os três especialistas consultados pela reportagem alertam que,nenhum caso, medicamentos ou suplementos devem ser tomados sem acompanhamento médico.
García promove a eliminaçãotoxinasseu tratamento, que pode variar desde algumas obturações dentárias que contêm mercúrio até a substituiçãorecipientesplástico por vidro ou sabonetes líquidos por sabonetebarra. São mudanças que nem sempre estão ao alcancetodos por causa do ritmovida, condições econômicas e contexto social.
Mas também propõe mudanças muito mais acessíveis na dieta, como eliminar açúcar e alimentos ultraprocessados e tudo o que considera inflamatório, como glúten ou leitevaca. Também orienta banhossol, essenciais para a vitamina D, e exercícios. "Mas os exercícios devem ser feitos com moderação, porque eles são algo que estressa muito o corpo".
Devido ao tipomulheres que vão àconsulta - "de meia idade, com uma forte carga mental e emocional" -, García recomenda pequenos gestos diários: dormir sem o celular ao lado, redução do consumointernet, meditação, terapia, alémum melhor gerenciamento das emoções.
"Ao mudar parte da dieta e diminuir o estresse, as mudanças são espetaculares", observa García.
Conheça-se melhor e tenha compaixão
Eirene, Loreta e Laura concordamum processo que descrevem como essencial: o autoconhecimento.
"É fundamental saber quando algo está me incomodando e quando são os hormônios", diz Laura. "Conheça-se, escreva toda vez que sentir uma mudançahumor, aprenda com a doença."
Também é fundamental buscar redesapoio e explicar o problema para as pessoas mais próximas. "Há muito mal-entendido. Você é visto como preguiçoso, o esquisito que come esquisito, que não bebe álcool", explica Eirene, que modificou radicalmentedieta e estilovida, eliminando todas as toxinas possíveis e incluindo um anti-inflamatório na dieta.
Laura está grata por seu hipotireoidismo ter surgido para lhe dar a oportunidadeolhar para dentro dela mesma. E aconselha: "Esta é uma doença silenciosa, mas quem grita com você é o seu corpo. Ouça-o, abrace-o, seja compreensivo consigo mesmo e, a chave, tenha autocompaixão".
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